O afeto em tempos de isolamento social: uma reflexão profunda

Por muito se falava que estávamos nos isolando uns dos outros através das redes sociais. Que estávamos deixando de compartilhar momentos de vida e estávamos apenas preocupados demais com a vida online.

Pois, eis que surge uma pandemia e faz com que todos tranquem-se em suas casas, em isolamento social para preservação da saúde física, e tenham como janela para o mundo a tela de seus celulares. 

Não há dúvidas que este momento ficará marcado na história da humanidade pela questão da saúde pública, mas sobretudo, também será um marco que nos levou a uma reflexão sobre a forma com a qual nos relacionamos com as pessoas.

Isolamento social: uma medida necessária para o bem de todos

De tanto falava-se em falta de empatia no mundo e, de repente, uma enxurrada de pedidos para que ficássemos em nossas casas a fim de preservarmos não só as nossas vidas, mas as das outras pessoas que estavam entre as com fatores de risco, como idosos e doentes crônicos.

Esta foi, portanto, a primeira grande chance da humanidade, em anos, de demonstrar a capacidade de exercermos o autocuidado e praticarmos o cuidado com o outro. Isso nos promove a reflexão de qual o nosso papel no mundo? Qual a nossa importância para as outras vidas?

Se antes achávamos que não éramos, pois agora percebemos que somos sim importantes e partes de uma grande família humana que precisa cooperar e colaborar. Este momento está permitindo que nos percebamos como seres individuais, com suas próprias necessidades e angústias, mas também como partes integrantes do coletivo e que nossas ações refletem no outro.

Individualidade: enfrentando o ‘eu mesmo’ no isolamento social

Além do despertar do senso coletivo, esse momento nos trouxe a obrigação de ficarmos muito mais tempo em nossa própria presença. As fugas da realidade e o espelhamento com o outro de forma constante foi reduzida, proporcionando uma oportunidade única de um mergulhar profundo em si mesmo para enxergar os nossos traços mais íntimos.

O que você percebeu bem você mesmo durante este período de isolamento social que mais te chamou atenção? 

O que mais te angustiou e que momentos foram resgatados, consigo mesmo ou em família que te trouxeram alegrias? 

Quantos amigos distantes sentiste falta? 

Quantas coisas agora estavam ao teu alcance e quantas outras não estavam mais? 

Todos esses são questionamentos válidos.

Além disso, convido você a uma reflexão: você consegue identificar os sentimentos que povoaram o seu peito durante este período? Você sentiu raiva dos que estavam indo à rua ou de si mesmo por não poder sair? Em que momentos você se sentiu mais triste ou angustiado? Que singelas atividades lhe trouxeram alegria? Pense.

Este é um momento precioso de sentirmos que o outro está perto, por estar exatamente na mesma situação que a gente, mas distante fisicamente. Por enquanto, é um momento que não há respostas, apenas perguntas sobre si mesmo para consigo mesmo e si mesmo em relação ao outro distante. Cada um reage de uma forma e encara a situação de um jeito.

O que a psicologia consegue explicar é que momentos de isolamento social podem contribuir fortemente para ansiedade e sintomas depressivos, pelo fato de haver uma restrição imposta por outrem. O importante é conseguir identificar esses sentimentos e lidar com eles. Ainda, procurar ajuda quando necessário.

Isolamento social não é isolamento afetivo

Pense como seria estar isolado durante o último grande período em que situação semelhante ocorreu na terra, em 1918 durante a febre espanhola. As condições de vida naquela época e o conforto em casa para a maioria da população eram menores do que hoje em dia.

Hoje, a internet permite que nos conectemos com nossos amigos e vejamos eles em tempo real, não importa onde eles estiverem. Isso facilita a manutenção do laços sociais e de aproximação com o outro. Afinal, o outro está na mesma situação que eu, e eu vou até ele ao mesmo tempo que ele vem a mim para conversarmos. 

Enquanto uma ida ao supermercado pode ser um pouco traumática, pelo fato de vermos pessoas com máscaras, nos olhando com caras estranhas e higienizando tudo o tempo todo, sabemos que estamos todos juntos enfrentando uma pandemia que, em algum momento, passará, com nossos amigos ou familiares temos uma relação afetiva e isto é benéfico em momentos assim.

Apesar de você estar isolado socialmente, não deve isolar, do mundo sua presença, afinal, os seres humanos são seres sociais e que necessitam do contato com o outro para manterem a sua saúde mental. Portanto, mantenha seus laços, faça videochamadas, happy hours online com os seus amigos. Apesar de a vida econômica estar parada, o seu amor não precisa estar.

Sim, a angústia surgirá

Como mencionei anteriormente, cada um tem uma maneira de reagir a situações de isolamento social. Alguns de forma melhor, outros nem tanto. No entanto, todos passarão por momentos de angústia e é normal sentir isso. Devemos sentir e entender esse sentimento. Só não devemos fazer com que esse sentimento seja o nosso colchão. Daí a importância de manter uma rotina, alimentar-se bem, fazer exercícios físicos e ter contato social.

Da mesma forma, tal como a internet vem aproximando os seres humanos, ela também pode ser fonte de angústia. Daí a importância da divisão do seu tempo entre atividades. Daí a importância do mergulhar em si e conectar-se com os seus sentimentos. 

Olhar as notícias o tempo todo, visualizar o número crescentes de casos e ficar esperando as atualizações dos seus amigos nas redes sociais pode ser muito prejudicial. O excesso de informação só trará ainda mais angústia ao seu peito. Divida a sua atenção com outras atividades que lhe deem prazer.

Mais do que nunca, uma oportunidade para exercitar o equilíbrio

Se antes uma das principais reclamações era a de falta de tempo para fazer suas atividades ou estar com quem você gosta, agora, isso não existe mais. Justamente é que chega a oportunidade para olharmos o que está à nossa disposição de forma calma, para conseguirmos alcançar o equilíbrio. Do mesmo modo, conseguimos enxergar com clareza o que não está ao nosso alcance e isso não nos deve desesperar. 

O seu mote pode ser: o que eu posso fazer agora, por mim e pelo outro, com o que eu tenho, e que seja benéfico a mim e a ele?

Sabemos que não é um momento fácil

Este, nem de longe é um momento fácil. Talvez seja um dos momentos mais difíceis da humanidade em todos os aspectos dos últimos 100 anos. É justamente nesses momentos que temos a oportunidade de refletir melhor e nos reinventar. Um bom exercício, além de refletir sobre tudo o que foi falado nesse texto, pode ser justamente o de aceitação daquilo que chegou e que está acontecendo. Um momento em que, mais do que nunca, precisamos do outro e de nós mesmos. Mas um momento que, tanto na individualidade quanto na coletividade, vamos superar. Estamos todos juntos nessa.

Se você anda se sentindo muito ansioso, angustiado e constantemente triste, faça sua avaliação emocional online com o Teste SRQ-20. Um teste produzido pela OMS que ajuda a identificar suspeitas de transtornos mentais comuns, como depressão e ansiedade.

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