Outro dia, atendi um adolescente no consultório que estava há semanas faltando à escola. Ele não apresentava um transtorno psiquiátrico clássico. Não tinha uma depressão grave, não ouvia vozes, não usava substâncias. Mas havia algo ali que me preocupava profundamente: ele passava quase 12 horas por dia jogando online, trancado no quarto, longe de qualquer vínculo afetivo real.
Essa história não é exceção. Ela se repete — em diferentes intensidades — em inúmeros lares, muitas vezes sob os olhos atentos e amorosos de pais que simplesmente não sabem mais o que fazer.
Vivemos um tempo em que o sofrimento emocional deixou de ser óbvio. Muitas vezes, ele se esconde atrás de telas brilhantes, conquistas digitais, vitórias em batalhas fictícias. É por isso que costumo dizer que o vício em jogos online entre jovens é um dos alertas mais silenciosos da nossa era.
A Organização Mundial da Saúde já reconhece o transtorno do jogo eletrônico como uma condição clínica. Mas, mais do que definições técnicas, o que vemos são crianças e adolescentes perdendo o prazer pela vida real, trocando vínculos humanos por avatares, e sentido alívio apenas quando estão conectados.
E antes que surjam os discursos fáceis — não, não se trata de demonizar a tecnologia. Ela está aí, faz parte da vida e tem seus inúmeros benefícios. O que preocupa é o uso desregulado, solitário, emocionalmente compulsivo que muitos jovens estão fazendo dela. O jogo deixa de ser lazer e passa a ser um lugar de fuga, de anestesia emocional.
Nesse cenário, pais e mães muitas vezes se sentem impotentes. Educadores, perdidos. E os próprios adolescentes, confusos — entre a euforia da próxima partida e o vazio quando a tela apaga.
Por Dr. Henrique Bottura – Médico psiquiatra e CEO do IPP
